Reflexões

Jogos de lógica em sala de aula: o que treinam de verdade

Gladison Perosini
Gladison Perosini
Professor · Pesquisador em Educação
Dois alunos resolvem juntos um quebra-cabeça de lógica no estilo sudoku em uma sala de aula, enquanto a professora observa ao fundo.

Os jogos de lógica em sala de aula ganham cada vez mais espaço, e com razão: prendem a atenção, dão retorno imediato e transformam o erro em parte do processo. Mas vale perguntar com honestidade o que exatamente eles treinam e o que não treinam. A resposta ajuda o professor a usar o jogo com propósito, e não como passatempo para preencher o fim da aula.

O que um bom jogo de lógica exercita

Três jogos simples mostram bem as operações de raciocínio envolvidas.

Sudoku: dedução a partir de regras

No sudoku, cada número só pode aparecer uma vez por linha, coluna e quadrado. Resolver é aplicar essas regras de forma sistemática até que reste uma única possibilidade. O aluno aprende a sustentar uma conclusão naquilo que está dado e a desconfiar do chute. É dedução em estado puro.

Palavra do Dia: levantar hipóteses e testá-las

Na Palavra do Dia, o jogador tem seis tentativas para descobrir uma palavra. Cada tentativa é uma hipótese, e o jogo devolve evidências: letras certas no lugar certo, letras certas no lugar errado, letras que não existem. Quem joga bem aprende a escolher a próxima tentativa para obter a maior quantidade de informação, e não apenas para acertar. É o ciclo hipótese, evidência e revisão, o mesmo que sustenta qualquer investigação.

Jogo de fuga: resolver problemas por etapas

No jogo de fuga, a saída depende de uma sequência de pequenos problemas, e cada um abre caminho para o seguinte. O aluno precisa decompor o desafio, planejar a ordem dos passos e voltar atrás quando uma estratégia não funciona. É planejamento e persistência diante do impasse.

O que os jogos não ensinam

Aqui está o limite, e ele é importante. Os jogos de lógica treinam operações de raciocínio dentro de um problema bem definido: as regras são claras, a resposta existe e o próprio jogo diz se o caminho está certo. O pensamento crítico, porém, se exerce justamente onde nada disso está garantido.

Na vida real, ninguém informa as regras de antemão. É preciso perguntar de onde vem uma informação, quem a produziu e com qual interesse, que vozes ficaram de fora e que outras leituras seriam possíveis. Não há um quadro verde avisando que a hipótese está correta. Pensar criticamente envolve diálogo, conflito de interpretações e a disposição de rever as próprias certezas, e nada disso cabe num tabuleiro de sudoku.

Por isso, o jogo não substitui um método de ensino do pensamento crítico. Ele pode aquecer o raciocínio, criar o hábito de justificar uma conclusão e mostrar que errar faz parte de aprender. Mas a passagem do raciocínio lógico para a leitura crítica do mundo precisa de mediação intencional do professor, de perguntas que o jogo não faz.

Como usar em sala de aula

Os jogos citados estão no Planeta Pipo, um projeto meu de jogos online gratuitos, que funcionam sem cadastro, no celular ou no computador, e podem ser usados diretamente em sala de aula. Sobre o método de ensino do pensamento crítico, veja a Periocrítica.

E você: quando seus alunos acertam um desafio, já pediu que explicassem como chegaram à resposta? O que descobriu?

Gladison Perosini

Escrito por Gladison Perosini

Professor da rede pública municipal e pesquisador em Educação. Mestre em Sociologia Política (UVV) e doutorando em Ciências da Educação. Desenvolve a Periocrítica Dialógica. Conheça a trajetória →

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