Reflexões

Determinismo biológico e cultura: o que diz a antropologia

Gladison Perosini
Gladison Perosini
Professor · Pesquisador em Educação
Silhueta humana dividida em faixas com padrões de diferentes culturas, sobre uma hélice de DNA ao fundo.

As diferenças entre os povos não se explicam pela biologia, mas pela cultura. Esta é a tese central do primeiro capítulo de Cultura: um conceito antropológico, de Roque de Barros Laraia, e o fio condutor deste texto.

Imagine alguém nascido numa aldeia tupinambá do litoral brasileiro, no século XVI. Falaria tupi, dormiria em rede, seguiria outras regras de família e outras crenças. Biologicamente, porém, seria idêntico a qualquer um de nós.

Se o corpo é o mesmo, o que nos torna tão diferentes? A antropologia responde: aquilo que aprendemos ao viver em sociedade. Os próximos tópicos percorrem os conceitos que sustentam essa resposta.

O determinismo biológico e sua refutação

Por séculos, acreditou-se que o corpo explicava o comportamento dos povos. Essa crença recebe o nome de determinismo biológico: a ideia de que a natureza decide como vivemos.

Uma de suas versões mais antigas é a teoria dos quatro humores, formulada por Hipócrates e desenvolvida por Galeno. O equilíbrio entre sangue, fleuma, bile amarela e bile negra definiria o temperamento de cada pessoa:

Mais tarde, o clima e, no século XIX, a raça passaram a ser apontados como causas do caráter dos povos. A ciência, contudo, não comprovou que grupos humanos se diferenciem por traços psicológicos inatos, seja inteligência, seja temperamento. O que caiu não foi a biologia, mas a pretensão de que ela determine o conteúdo da cultura.

Capacidade de aprender e plasticidade

O ser humano não nasce com o comportamento pronto. Diferentemente de muitos animais, que dependem de instintos, ele depende do aprendizado.

Um bebê criado no Japão, no Brasil ou na Nigéria aprenderá com perfeição a língua e os costumes do lugar. Isso se deve a duas características inatas e comuns a toda a espécie: a capacidade de aprender e a plasticidade, isto é, a capacidade de ser moldado pela cultura.

Ao longo da evolução, o ser humano passou a depender menos do instinto e mais do aprendizado. Por isso vive tanto no gelo do Ártico quanto no calor do deserto: não porque o corpo mude, mas porque a cultura oferece as respostas, como roupas, abrigos, técnicas e alimentos.

Endoculturação

Ninguém decide achar normal comer com garfo ou cumprimentar com um aperto de mão. Aprende-se isso desde a infância, sem perceber, pela convivência.

Esse processo chama-se endoculturação (do grego endo, "dentro"): a aprendizagem da própria cultura, de dentro dela, desde o nascimento. Justamente por ocorrer assim, a cultura em que crescemos parece natural, e a dos outros, estranha.

A endoculturação distingue-se da aculturação, que designa as mudanças decorrentes do contato entre culturas diferentes.

Dimorfismo sexual e divisão sexual do trabalho

As diferenças físicas entre homens e mulheres são reais, mas não definem os papéis sociais de cada um. Essas diferenças recebem o nome de dimorfismo sexual: variações entre machos e fêmeas da mesma espécie, além dos órgãos reprodutores.

No leão, a juba distingue o macho. Nos seres humanos, há diferenças médias de estatura, massa muscular, estrutura óssea e voz, além da gestação e da amamentação, exclusivas das mulheres.

Se a biologia determinasse quem faz o quê, a divisão das tarefas seria a mesma em todas as sociedades. Não é: uma mesma atividade, como tecer, plantar ou carregar cargas pesadas, cabe aos homens num povo e às mulheres em outro. A biologia impõe alguns limites, mas quem distribui as tarefas é a cultura, que depois apresenta essa escolha como se fosse natural.

Relativismo cultural: Anchieta, os Tupinambá e Montaigne

Diante de uma cultura diferente, o caminho proposto pela antropologia é compreender antes de julgar. Um episódio do século XVI mostra por quê.

O padre José de Anchieta (1534-1597) relatou a seus superiores, com espanto, as regras de parentesco dos Tupinambá. Para eles, o parentesco verdadeiro vinha apenas do pai; a mãe era vista como mero recipiente, e Anchieta registra que as mães eram consideradas "não mais que uns sacos". Daí decorriam duas regras:

Pelo mesmo princípio, o filho de pai tupinambá era livre, ainda que a mãe fosse cativa; já o filho de pai cativo era tratado como escravo.

Anchieta mediu esses costumes pela moral cristã europeia. Essa postura chama-se etnocentrismo: tomar a própria cultura como padrão do certo. O relativismo cultural propõe o contrário: compreender uma cultura pela lógica dela mesma, sem julgá-la pelos valores de quem observa de fora. E, na lógica patrilinear tupinambá, aquelas regras eram coerentes.

Compreender, porém, não significa concordar com tudo. O relativismo é, antes de tudo, uma postura de método.

Na mesma época, o filósofo francês Michel de Montaigne escreveu o ensaio Dos canibais (1580) sobre esses mesmos povos e inverteu a pergunta: quem são, afinal, os bárbaros?

Considerações finais

Todos os seres humanos nascem com a mesma capacidade de aprender qualquer cultura; o que cada um se torna depende da cultura em que é criado. O inato é universal; o que diferencia os povos é adquirido.

Dessa constatação decorrem os demais conceitos. A plasticidade torna possível a endoculturação. O dimorfismo sexual é biológico, mas os papéis sociais são culturais. E, diante do diferente, o relativismo convida a perguntar: qual é a lógica disso para quem vive ali?

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar, 1986. MONTAIGNE, Michel de. Dos canibais. In: MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. Livro I. [1580].

Gladison Perosini

Escrito por Gladison Perosini

Professor da rede pública municipal e pesquisador em Educação. Mestre em Sociologia Política (UVV) e doutorando em Ciências da Educação. Desenvolve a Periocrítica Dialógica. Conheça a trajetória →

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