As diferenças entre os povos não se explicam pela biologia, mas pela cultura. Esta é a tese central do primeiro capítulo de Cultura: um conceito antropológico, de Roque de Barros Laraia, e o fio condutor deste texto.
Imagine alguém nascido numa aldeia tupinambá do litoral brasileiro, no século XVI. Falaria tupi, dormiria em rede, seguiria outras regras de família e outras crenças. Biologicamente, porém, seria idêntico a qualquer um de nós.
Se o corpo é o mesmo, o que nos torna tão diferentes? A antropologia responde: aquilo que aprendemos ao viver em sociedade. Os próximos tópicos percorrem os conceitos que sustentam essa resposta.
O determinismo biológico e sua refutação
Por séculos, acreditou-se que o corpo explicava o comportamento dos povos. Essa crença recebe o nome de determinismo biológico: a ideia de que a natureza decide como vivemos.
Uma de suas versões mais antigas é a teoria dos quatro humores, formulada por Hipócrates e desenvolvida por Galeno. O equilíbrio entre sangue, fleuma, bile amarela e bile negra definiria o temperamento de cada pessoa:
- Sanguíneo: alegre e expansivo, pelo predomínio do sangue.
- Fleumático: calmo e lento, pelo predomínio da fleuma.
- Colérico: irritável e impulsivo, pelo predomínio da bile amarela.
- Melancólico: triste e introspectivo, pelo predomínio da bile negra. A palavra "melancolia" vem do grego melas (negro) e cholé (bile).
Mais tarde, o clima e, no século XIX, a raça passaram a ser apontados como causas do caráter dos povos. A ciência, contudo, não comprovou que grupos humanos se diferenciem por traços psicológicos inatos, seja inteligência, seja temperamento. O que caiu não foi a biologia, mas a pretensão de que ela determine o conteúdo da cultura.
Capacidade de aprender e plasticidade
O ser humano não nasce com o comportamento pronto. Diferentemente de muitos animais, que dependem de instintos, ele depende do aprendizado.
Um bebê criado no Japão, no Brasil ou na Nigéria aprenderá com perfeição a língua e os costumes do lugar. Isso se deve a duas características inatas e comuns a toda a espécie: a capacidade de aprender e a plasticidade, isto é, a capacidade de ser moldado pela cultura.
Ao longo da evolução, o ser humano passou a depender menos do instinto e mais do aprendizado. Por isso vive tanto no gelo do Ártico quanto no calor do deserto: não porque o corpo mude, mas porque a cultura oferece as respostas, como roupas, abrigos, técnicas e alimentos.
Endoculturação
Ninguém decide achar normal comer com garfo ou cumprimentar com um aperto de mão. Aprende-se isso desde a infância, sem perceber, pela convivência.
Esse processo chama-se endoculturação (do grego endo, "dentro"): a aprendizagem da própria cultura, de dentro dela, desde o nascimento. Justamente por ocorrer assim, a cultura em que crescemos parece natural, e a dos outros, estranha.
A endoculturação distingue-se da aculturação, que designa as mudanças decorrentes do contato entre culturas diferentes.
Dimorfismo sexual e divisão sexual do trabalho
As diferenças físicas entre homens e mulheres são reais, mas não definem os papéis sociais de cada um. Essas diferenças recebem o nome de dimorfismo sexual: variações entre machos e fêmeas da mesma espécie, além dos órgãos reprodutores.
No leão, a juba distingue o macho. Nos seres humanos, há diferenças médias de estatura, massa muscular, estrutura óssea e voz, além da gestação e da amamentação, exclusivas das mulheres.
Se a biologia determinasse quem faz o quê, a divisão das tarefas seria a mesma em todas as sociedades. Não é: uma mesma atividade, como tecer, plantar ou carregar cargas pesadas, cabe aos homens num povo e às mulheres em outro. A biologia impõe alguns limites, mas quem distribui as tarefas é a cultura, que depois apresenta essa escolha como se fosse natural.
Relativismo cultural: Anchieta, os Tupinambá e Montaigne
Diante de uma cultura diferente, o caminho proposto pela antropologia é compreender antes de julgar. Um episódio do século XVI mostra por quê.
O padre José de Anchieta (1534-1597) relatou a seus superiores, com espanto, as regras de parentesco dos Tupinambá. Para eles, o parentesco verdadeiro vinha apenas do pai; a mãe era vista como mero recipiente, e Anchieta registra que as mães eram consideradas "não mais que uns sacos". Daí decorriam duas regras:
- A filha do irmão era tratada como filha, e relações com ela eram proibidas.
- A filha da irmã, por vir de outra linhagem paterna, não era considerada parente, e a união com ela era permitida.
Pelo mesmo princípio, o filho de pai tupinambá era livre, ainda que a mãe fosse cativa; já o filho de pai cativo era tratado como escravo.
Anchieta mediu esses costumes pela moral cristã europeia. Essa postura chama-se etnocentrismo: tomar a própria cultura como padrão do certo. O relativismo cultural propõe o contrário: compreender uma cultura pela lógica dela mesma, sem julgá-la pelos valores de quem observa de fora. E, na lógica patrilinear tupinambá, aquelas regras eram coerentes.
Compreender, porém, não significa concordar com tudo. O relativismo é, antes de tudo, uma postura de método.
Na mesma época, o filósofo francês Michel de Montaigne escreveu o ensaio Dos canibais (1580) sobre esses mesmos povos e inverteu a pergunta: quem são, afinal, os bárbaros?
Considerações finais
Todos os seres humanos nascem com a mesma capacidade de aprender qualquer cultura; o que cada um se torna depende da cultura em que é criado. O inato é universal; o que diferencia os povos é adquirido.
Dessa constatação decorrem os demais conceitos. A plasticidade torna possível a endoculturação. O dimorfismo sexual é biológico, mas os papéis sociais são culturais. E, diante do diferente, o relativismo convida a perguntar: qual é a lógica disso para quem vive ali?
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar, 1986. MONTAIGNE, Michel de. Dos canibais. In: MONTAIGNE, Michel de. Ensaios. Livro I. [1580].
Escrito por Gladison Perosini
Professor da rede pública municipal e pesquisador em Educação. Mestre em Sociologia Política (UVV) e doutorando em Ciências da Educação. Desenvolve a Periocrítica Dialógica. Conheça a trajetória →